Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.
Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.
Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.
Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.
Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.
A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.
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janeiro 26, 2010 às 3:08 pm |
Pode ser loucura minha, mas a questão da direcionalidade e da não-passividade me lembrar muito um trecho de um livro do Honneth, o qual transcrevo logo abaixo.
“No novo contexto, o termo “reconhecimento” refere-se àquele passo cognitivo que uma consciência já constituída “idealmente” em totalidade efetua no momento em que ela “se reconhece como a si mesma em uma outra totalidade, em uma outra consciência”; e há de ocorrer um conflito ou uma luta nessa experiência do reconhecer-se-no-outro, porque só através da violação recíproca de suas pretensões subjetivas os indivíduos podem adquirir um saber sobre se o outro também se reconhece neles como uma “totalidade”: Mas eu não posso saber se minha totalidade, como de uma consciência singular na outra consciência, será esta totalidade sendo-para-si, se ela é reconhecida, respeitada, senão pela manifestação do agir do outro contra minha totalidade, e ao mesmo tempo o outro tem de manifestar-se a mim como uma totalidade, tanto quanto eu a ele”
janeiro 26, 2010 às 3:12 pm |
Wow! Parece bom. Tenho dúvidas quanto a algumas coisas. Mais tarde leio direitinho, com mais cuidado. =)
janeiro 26, 2010 às 8:35 pm |
O terceiro parágrafo me lembrou bastante a intencionalidade husserliana, gostei.
março 24, 2010 às 3:20 am |
[...] um começo, pode ser bom retomar o post “Não se dança para, se dança com.”, para relembrar que o mundo é construído, e não pronto para o percebermos/recebermos. O processo [...]