Archive for novembro \27\UTC 2009

Por que não registro?

novembro 27, 2009

Registros são falsos e ineficientes. Não existe a possibilidade de se falar exatamente sobre uma coisa, ou a descrição seria a própria coisa. É o que Peirce nos diz sobre a metáfora: se ela fosse perfeita, não seria uma metáfora. E Flusser, lindo como sempre, apóia tal raciocínio quando diz que a fotografia não é uma janela para o universo, mas uma interpretação de algo do universo. (Flusser, 1985)

Geralmente comete-se o equívoco de pensar na fotografia ou o vídeo como capturas da realidade. O que acontece, no entanto, é que eles têm o potencial de construir realidade, mas disso tratarei mais tarde, em outro texto. Atenho-me aqui ao equívoco de se pensar numa neutralidade do registro, numa captura do real. Toda imagem é uma construção parcial feita a partir de escolhas restritas às possibilidades aparelhísticas de quem imagina – entenda imaginar como construir imagens.

Desfeito o mito da imagem imparcial, posso dizer agora que o registro da dança é um falso registro. Meu foco não tem sido fotografia ou vídeo ou análise verbal de coreografia, logo não faz sentido que eu produza esse tipo de material. A coreografia se apresenta a partir do corpo humano. Vídeo não é coreografia e, portanto, ele não é o meio apropriado para que se apresente coreografia.

Proponho, portanto, um espaço livremente reflexivo para que questões pertinentemente verbais possam ser levantadas.

Primeira tentativa declarada da aproximação jogo-dança.

novembro 24, 2009

“Tendemos a perceber nosso ambiente como contexto de jogos, como o século 18 tendia a percebê-lo como contexto de mecanismos, e o século 19 como contexto de organismos. Por exemplo: para o século 18 o corpo humano era máquina, para o século 19 era conjunto vital, e para nós é jogo de sistemas complexos. (…) Tal tendência nossa para a ludicidade tem duas fontes. Uma é nossa práxis, que é a de jogo com símbolos. A outra é o fato de vivermos programados: programas são jogos.” (Flusser, 1983)

Esse é o primeiro parágrafo do delicioso texto “NOSSO JOGO”, contido em Pós-História, de Vilém Flusser, publicado pela primeira vez no Brasil em 1983. Já nos fala do corpo humano, aproximando-se da dança, quando diz que é “jogo de sistemas complexos”. Seja a arte uma maneira de subvertermos as regras dos jogos que participamos, quaisquer forem eles, de forma a conseguirmos fazer com que as virtualidades menos óbvias contidas no seu programa venham à tona, surpreendendo o programador: a dança, desse modo, poderia se constituir de estratégias para lidarmos esteticamente (e também eticamente, e talvez até de mais formas, mas preciso me familiarizar um pouco mais a esses termos) com o jogo de sistemas complexos que compõem o corpo humano.

Seguindo esse raciocínio, penso ser inevitável chegarmos à teoria “corpomídia” desenvolvida pelas professoras Helena Katz e Christine Greiner, da PUC-SP. Essa teoria nos propõe que o corpo é meio (já já posto sobre a minha recusa do uso da palavra mídia) de si mesmo, inclusive quando dança, negando a idéia do corpo no meio.

Quando existe dança, portanto, existe discussão de estratégias de como jogar com o aparelho corpo humano, que é o próprio meio em que o jogo (dança) acontece.

Vale lembrar que corpo e ambiente atuam coevolutivamente um sobre o outro e são indissociáveis. Logo, jogar com o corpo é também jogar com o ambiente; dançar é jogar nos limites do programa com corpo e ambiente coevolutivamente.

P.s.: tentarei me livrar gradativamente do vício em parênteses ou qualquer outro tipo de recurso explicativo no meio das frases.

A situação

novembro 18, 2009

[Esse post servirá para que o blog se situe no mundo e, principalmente, explicite as perguntas do autor que culminarão nos próximos escritos.]

“A Incerteza” foi um projeto que começou com o apoio do FID (Fórum Internacional de Dança) 2009, através do Programa Território Minas, que oferece bolsas de pesquisa em dança para pessoas de Minas Gerais. Esse ano, eu (Raul, o Incerto) e Joana Wanner fomos contemplados com a bolsa para a pesquisa, que teve seu resultado provisório apresentado nos dias 29 e 30 de outubro, no Espaço Cultural Ambiente, dentro da programação do FID 2009.

As investigações de “A Incerteza” tiveram como ponto de partida a investigação de algumas formas de entendimento do tempo ao longo da história da ciência – especialmente as noções de Isaac Newton (século XVII), da termodinâmica (séculos XIX e, a partir de Ilya Prigogine, XX) e de Albert Einstein (século XX). A partir dessas noções, nos perguntávamos como essas diferentes idéias poderiam influenciar na criação e execução coreográficas, e chegamos à dicotomia que acompanharia todo o projeto e permaneceria além dele: determinismo (o que, no entendimento de tempo, significa “futuro previsível” e “passado conhecido”) e não-determinismo (onde há a possibilidade da existência da novidade, pela existência do acaso). O estudo da música e vídeo, meios (pretendo dedicar um post ao porquê da escolha da palavra “meio”, e não “mídia”) que como a dança possuem o caráter de sucessão temporal explícito, provou-se um potencializador enorme para a investigação proposta, sendo responsáveis pela criação de quase todos os experimentos.

Após a apresentação do resultado da primeira etapa da pesquisa no FID 2009, a investigação do caráter de jogo dos experimentos criados e a exploração do erro como possibilidade de surgimento de novidade artística restaram como as propostas mais fortes, e são esses dois pontos os mais importantes para as perguntas proposta para a continuidade das investigações.

A filosofia programática proposta por Vilém Flusser (Praga, 1920-1991) tem tido importância enorme para as reflexões e será assunto para alguns posts que virão a seguir. Relacioná-la com a dança tem sido surpreendente pra mim, no sentido de que tem parecido mais pertinente do que pensei.

Bom, fica aqui a minha breve introdução a esse blog, que pretende ter muito mais caráter reflexivo que de registro – e a explicação dessa pretensão também fica pra outro post. Bacana que já tenho assunto pra outros três posts.

Foto: Cuia Guimarães / FID 2009