Primeira tentativa declarada da aproximação jogo-dança.

“Tendemos a perceber nosso ambiente como contexto de jogos, como o século 18 tendia a percebê-lo como contexto de mecanismos, e o século 19 como contexto de organismos. Por exemplo: para o século 18 o corpo humano era máquina, para o século 19 era conjunto vital, e para nós é jogo de sistemas complexos. (…) Tal tendência nossa para a ludicidade tem duas fontes. Uma é nossa práxis, que é a de jogo com símbolos. A outra é o fato de vivermos programados: programas são jogos.” (Flusser, 1983)

Esse é o primeiro parágrafo do delicioso texto “NOSSO JOGO”, contido em Pós-História, de Vilém Flusser, publicado pela primeira vez no Brasil em 1983. Já nos fala do corpo humano, aproximando-se da dança, quando diz que é “jogo de sistemas complexos”. Seja a arte uma maneira de subvertermos as regras dos jogos que participamos, quaisquer forem eles, de forma a conseguirmos fazer com que as virtualidades menos óbvias contidas no seu programa venham à tona, surpreendendo o programador: a dança, desse modo, poderia se constituir de estratégias para lidarmos esteticamente (e também eticamente, e talvez até de mais formas, mas preciso me familiarizar um pouco mais a esses termos) com o jogo de sistemas complexos que compõem o corpo humano.

Seguindo esse raciocínio, penso ser inevitável chegarmos à teoria “corpomídia” desenvolvida pelas professoras Helena Katz e Christine Greiner, da PUC-SP. Essa teoria nos propõe que o corpo é meio (já já posto sobre a minha recusa do uso da palavra mídia) de si mesmo, inclusive quando dança, negando a idéia do corpo no meio.

Quando existe dança, portanto, existe discussão de estratégias de como jogar com o aparelho corpo humano, que é o próprio meio em que o jogo (dança) acontece.

Vale lembrar que corpo e ambiente atuam coevolutivamente um sobre o outro e são indissociáveis. Logo, jogar com o corpo é também jogar com o ambiente; dançar é jogar nos limites do programa com corpo e ambiente coevolutivamente.

P.s.: tentarei me livrar gradativamente do vício em parênteses ou qualquer outro tipo de recurso explicativo no meio das frases.

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5 Respostas to “Primeira tentativa declarada da aproximação jogo-dança.”

  1. Glass Says:

    E além de tudo, dança é um poderoso jogo social.

  2. João Says:

    Continuando e estrapolando o papo sobre evolução, a relação coevolutiva entre corpo e ambiente pode ser muito complexada, mas talvez melhor entendida se estendermos à coevolução (talvez geracional, talvez não) entre corpo e mente. Aí que a vaca vai pro brejo!

    • Raul, o Incerto Says:

      O negócio, João, é que o que eu quero evitar é justamente a dicotomia corpo-mente. A mente é o próprio corpo, não penso nessa separação metafísica da mente. O próprio corpo produz e é pensamento, pois pensamento é uma ação que pode ser concreta também.

  3. João Says:

    Ponto de vista interessante, pois essa união e não separação entre as pulsões do corpo e as da mente pode ser de grande ajuda para entender nossas ações de um modo mais completo, sem ser platônico demais e sem reprimir as vontades “carnais”, uma visão que não santifica o intelecto, nem o corpo.

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