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Por que não “mídia”?

dezembro 16, 2009

Imagino que esse seja um daqueles assuntos que é julgado por “bobagem”, mas algo que me preocupa muito é a reprodução de valores que se carrega nas palavras que usamos, muitas vezes sem nos darmos conta disso. A palavra “mídia” não é um exemplo que traz muita preocupação propriamente dita, mas tem me incomodado.

No latim, há a palavra medium, que significa a palavra portuguesa meio, e que possui plural media. Para se tratar dos meios de comunicação (plural), os países de língua inglesa encontraram nessas palavras certa pertinência e acabaram por adotá-las para falar desse assunto – mesmo que eu não saiba a data em que isso aconteceu, é clara hoje a permanência dessas palavras, tamanha a coerência dos termos. Obtém-se, dessa forma, o vocábulo media na língua inglesa (pronunciado mídia), para se tratar dos meios de comunicação.

Por alguma razão, o Brasil importou do inglês a pronúncia mídia, que significa um meio de comunicação singular, ou seja, a deturpação é dupla. A reprodução de valores se dá na importação dos vocábulos ingleses, o que não faz sentido, uma vez que nossa língua é latina e eles é que nos tomaram emprestado tal termo.

Portugal e países africanos de língua oficial portuguesa adotaram a pronúncia latina média para significar um meio de comunicação singular, o que traz uma deturpação (do plural para o singular), mas não me parece tão insensata quanto a adoção da pronúncia inglesa feita por nós.

Não sou contra a multisignificação ou a criação de novas palavras, deixo claro. O que me incomoda é a reprodução inconsciente de valores. A solução que encontrei é usar as palavras portuguesas meio (para medium) e meios (para media), já que dispomos dessas palavras e as acho tão pertinentes quanto as latinas para tratarmos dos meios de comunicação.

É isso que tenho usado e usarei nesse blog. Entendo essa discussão como pertinente às teorias dos meios de comunicação e de artes, e é disso que proponho tratar. Retomarei o assunto sempre que achar pertinente.

P.s.: fui atentado a esse problema pelo Prof. Rodrigo Duarte, do Departamento de Filosofia da FAFICH, UFMG, durante o curso “A estética de Vilém Flusser”, no primeiro semestre de 2009. Flusser, que é tcheco, ao escrever em português usa as palavras latinas medium e media.

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