Archive for janeiro \27\UTC 2010

Quando pode ser útil o uso do PARA?

janeiro 27, 2010

Penso que o PARA, além de pensarmos mais em apontar uma FAMILIARIDADE que uma FINALIDADE, pode nos ajudar também a pensar em PROPÓSITOS e em POSTURA ou POSIÇÃO ÉTICA.

Não se faz dança PARATODOS. E muito menos PARA UM. Perceptivamente pode ser que o uso do PARA seja problemático sim, mas eticamente ele nos traz uma facilidade incrível.

Segundo post-desabafo. Destrinchamento ou bombexplosão fica pra outro dia.

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Não se dança para…

janeiro 26, 2010

…uma finalidade, se dança para uma familiaridade.

“Não se dança para, se dança com.”

janeiro 26, 2010
A pergunta feita era: “Por que você dança para o público?” A primeira coisa que me passou pela cabeça, no entanto, foi que a idéia de dançar PARA o público reforça o sistema emissor-mensagem-receptor, do qual tanto tenho fugido, e também algumas pessoas com quem tenho conversado.

Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.

Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.

Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.

Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.

Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.

A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.

The Uncertainty.

janeiro 10, 2010

Decidi dar mais um passo em relação às questões linguísticas. A partir da criação de um blog que deverá ser escrito na língua inglesa, espero experimentar outra realidade (pra falar como Vilém Flusser), que de forma alguma pretende ser uma “versão em inglês” de A Incerteza.

Apesar do nome The Uncertainty ser sim uma tradução, é justamente a idéia de tradução que quero problematizar com isso. Esqueçamos tradução como correspondência, em prol do entendimento de aproximação. Em “Língua e realidade” (1963) Flusser apresenta uma argumentação muito bem fundamentada para esse tipo de pensamento, e isso também pode ser visto na semiótica de Charles Sanders Peirce, ou até mesmo na física estatística de Ilya Prigogine.

Levantar mais questões de língua, linguagem, entendimento de mundo e a dança no meio disso tudo: é essa a pretensão do blog The Uncertainty.

Enjoy!

Sir Isaac Newton

janeiro 4, 2010

Hoje de manhã abri o meu Google Chrome e na página inicial, que é a página de abertura de pesquisa do Google, tinha um galho de macieira e de repente me cai uma maçã. Lembrei-me de Sir Isaac Newton no ato e, quando cliquei no logotipo, fui direcionado à pesquisa de justamente esse nome e descobri que é aniversário de nascimento de um dos maiores cientistas da história, nascido em 1643.

No início e durante toda a pesquisa de A Incerteza estive estudando a física, ou filosofia natural, de Newton, para que pudesse entender o determinismo e a previsibilidade contidos em sua idéia de tempo e de universo. Criamos alguns jogos algorítmicos e tentamos criar sequências coreográficas baseadas em “força aplicada” que fossem o mais claras possível, para que a pudéssemos inverter os acontecimentos (coreografia), ou reverter as forças.

Para Newton, não conseguimos distinguir passado de futuro e a sensação de tempo caminhando para o futuro é uma espécie de “falha humana” (bastante platônico, não?). O mundo poderia ser redutível a trajetórias calculáveis matematicamente e seria uma soma delas, de modo que se conhecermos certo estado de algo poderemos dizer o que ocorreu antes e o que ocorrerá depois, ou seja, podemos falar sobre a trajetória de qualquer coisa por essa coisa ser a soma da trajetória de vários pontos. Cabia à ciência e a filosofia justamente tentar desvendar tais leis fundamentais reduzidas.

Foi essa idéia de redução matemática das leis do mundo que fizeram Newton tão importante. Suas três leis (inércia; a relação massa-aceleração-força; e a lei da ação e reação) sintetizam f’ísica e matematicamente grande parte do que observamos do mundo mecânico numa escala próxima à nossa.

Para isso, inventou o cálculo, e divide tal autoria com Gottfried Leibniz. A propósito, há uma briga famosa entre os dois. O que mais me cabe citar aqui é a divergência quanto à compreensão de espaço. Enquanto Newton acreditava existir algum ponto de referência de repouso absoluto no universo, ao qual nunca teríamos acesso, Leibniz recusava esse entendimento absoluto do espaço, que deveria existir sempre em relação a algo. Hoje já está mais que provado a relatividade espacial, uma vez que a constante universal proposta por Einstein é uma velocidade, ou seja, uma relação espaçotemporal indissociável.

Gostaria também de dar os parabéns ao homem que conseguiu provar a consistência da teoria gravitacional, e formulou uma Teoria da Gravitação Universal que fez com que a explicação mais coerente para o problema da atração dos corpos verticalmente para a Terra seja realmente a gravidade. Ao contrário do que muitos pensam, contudo, Newton não propôs uma explicação para a causa da existência da gravidade, que foi explorada por Einstein geometricamente cerca de duzentos anos depois.

Para finalizar volto aos experimentos de A Incerteza em 2009, em que percebemos a impossibilidade de nossos corpos serem tão exatos como Newton propunha. Não podíamos falar de um estado exatamente A, mas de um estado aproximadamente A e, portanto, qualquer previsão de um estado futuro B ou de um estado passado C só pode ser dada a partir de probabilidades. Isso é um assunto tratado pela física estatística de Ilya Prigogine, também incrivelmente importante para nosso trabalho. É um pensamento completamente diferente de Newton, mas que o inclui. Prigogine reconhece a importância de Newton para o desenvolvimento da física e sua teoria engloba os eventos newtonianos, que correspondem a eventos com previsão de 100% de chance de ocorrência. Vou parar por aqui, porque o assunto vai mudar demais.

Feliz 367 anos, Isaac Newton!

Um problema de língua.

janeiro 2, 2010

Lendo Vilém Flusser, “Língua e Realidade”, me deparo com o seguinte trecho escrito no prefácio por Gustavo Bernardo:

“…a primeira motivação do seu livro havia sido responder ao desafio que lhe fora lançado pela língua portuguesa, entendendo que a literatura brasileira de filosofia seria uma literatura alienada de sua própria língua. Do seu ponto de vista de imigrante, tratava-se de uma literatura de erudição que parasitava obras inglesas, alemãs e francesas. Para se contrapor, tomou a língua portuguesa como personalidade autêntica, sujeitando-se aos seus mandamentos e tentando formular pensamentos por ela ditados.”

BERNARDO, Gustavo. Prefácio. In: FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. 2ª ed. São Paulo: Annablume, 2004. p. 13-14.

A partir de tal declaração e voltando à idéia de exploração dos programas usados (e, por isso, não usar fotografias ou vídeos da pesquisa aqui, com possíveis e pertinentes exceções), senti-me provocado a ficar mais atento à língua usada. Talvez eu esteja me rendendo à sua escravidão. Isso é um blog de escritos e talvez eu não esteja suficientemente atento ao uso da língua nesses escritos.

Ai, minha Língua Portuguesa!