Archive for the ‘Dança’ Category

Férias de escrita.

agosto 19, 2010

Depois dessa série de vídeos:

O 7 é especial (mas ver todos é fundamental):

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CLUBE UR=H0R E ADRIANA BANANA | DESENQUADRANDO EUCLIDES

junho 11, 2010

PROP.POSIÇÃO #2 – pesquisa em DANÇApensamento.

Com TUCA PINHEIRO, KARINA COLLAÇO, LÍVIA RANGEL, ADRIANA BANANA e RAUL CORRÊA.

Dias 11, 12, 13, 18, 19 e 20 de junho de 2010.
Sextas e sábados às 20h, domingos às 18h.

Ingressos a R$10 (inteira) e R$5 (meia).

Rua Grão Pará, 185 – Santa Efigênia, BH/MG/Brasil.
Info: (31) 3241.2020 / 3225.5070

http://clubeur.wordpress.com/

Detetives, cérebros e documentação.

junho 6, 2010

Eis o seguinte problema: tentar reconstituir o passado.

Eis um problemão. Pensemos no trabalho de um detetive que tenta descobrir como se deu um certo crime. Sua tarefa consiste em observar características do presente que possam servir de referência para acontecimentos passados. Com base num aprendizado de toda uma vida, que inclui relações de causalidade, associação, sequência, classificação, entre um enorme punhado de maneiras de se raciocinar, e levando-se em consideração ainda uma ética, a sua capacidade criativa, o estado de saúde, a maneira filogenética (aquilo que é inato, herdado geneticamente) de seu corpo lidar com o ambiente – e vou parar por aqui senão nunca mais paro de escrever – o detetive coleta, dentre o que estiver disponível para ele, aquilo que pode ser relevante para a construção de sua hipótese. Digo o relevante porque não adianta gastar tempo, dinheiro e energia para se coletar todas as características do lugar analisado, e inclusive essa totalidade é algo bastante questionável. Dessa forma, ele organiza as informações para que se possa efetivamente obter uma reconstituição coerente e aceitável da cena do crime.

Agora eu vou contar uma coisa pra vocês: a percepção age da mesma forma que o detetive, construindo ativamente passado, presente e futuro de acordo com a melhor hipótese que se pode obter através dos dados sensoriais disponíveis e relevantes para tal. Por exemplo, se minha pele parece estar molhada (e isso já demandou uma análise neurológica supercomplexa), fria e espetada em vários pontos variando ao longo do tempo, ao mesmo tempo que pareço ver riscos caindo de cima pra baixo e tem um som que parece um monte de tec-tec e ploc-ploc vindo de todos os lados, a melhor hipótese é a de que deve estar chovendo em mim – e esse raciocínio todo é feito muito rapidamente, inconscientemente, caso contrário morreríamos de tanto tempo que iríamos levar analisando conscientemente essas coisas todas, o tempo todo. Vale notar, a partir da analogia proposta, que os sentidos não atuam separadamente na percepção da realidade. O que se percebe em forma de som, por exemplo, não é simplesmente o resultado da análise do aparelho auditivo, mas da hipótese construída a partir do que pode ser relevante para tal, o que no processo de escuta de uma língua fica quase óbvia a influência do aparelho visual, por exemplo. Não me estenderei nisso, mas tó umas coisitas pra quem quiser:

A minha intenção agora é fazer um paralelo entre o trabalho do detetive, a ação perceptiva e uma possível documentação de acontecimentos-dança. A documentação, ou registro, poderia ser pensada como a produção de possíveis pistas para a construção posterior de uma melhor hipótese do acontecimento (dança) em questão. Por exemplo, a gravação em vídeo de um ponto de vista estático é um conjunto de pistas. Se gravarmos mais um ponto de vista estático, é mais um conjunto que pode nos ajudar a formular melhor a hipótese do que aconteceu. Um ponto de vista em movimento daria outras pistas, assim como se gravarmos o som a partir de cada ponto de vista. As qualidades dos aparelhos de gravação de som e vídeo utilizados influenciam nas qualidades das pistas produzidas. Um relato em língua também pode constituir outras pistas; e por aí vai..

Parece óbvio que se faz documentação assim, mas a intenção é explicitar a lógica da elaboração da melhor hipótese como registro, em contraposição à idéia de que o registro possui o acontecimento em si. Até porque, como vimos, a percepção de um acontecimento já é a elaboração de uma hipótese feita pelo sistema perceptivo (nervoso? ou inclui outros?) do corpo humano (no caso, já que estamos falando de acontecimento-dança produzidos por indivíduos da espécie humana).

O documentarista seria, portanto, o criminoso que sabe que pistas deixará para o detetive, de forma a tentar prever como o último construirá a sua melhor-hipótese.

Vídeo.

maio 20, 2010

No primeiro post eu falei que não ia mostrar vídeos aqui, e cá estou eu videando.
Mas é que o vídeo já estava subido no Vimeo e achei que não fazia sentido deixá-lo de lado do blog.

Parece que o wordpress não me deixa botar o vídeo aqui. Esquisito… Vai assim mesmo:

VÍDEO

(Se alguém souber como fazer, diga por favor.)

História natural

abril 29, 2010

No fim, já não se sabe
se ainda é vegetal
ou se a planta se fez
formação mineral

à força de querer
permanecer tal qual
na permanência aguda
que é própria do cristal,

que só não pode ser
o imóvel mais cabal
mas que ao estar imóvel
está aceso e atual.

João Cabral (1979: 144)

Copiado de:
Katz, Helena. Um, dois, três. A dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: FID Editorial, 2005. 1 ed. p. 41

Landowski

março 24, 2010

“‘A vida não pode ser limitada à execução de programas fixados. É preciso buscar acordos entre sujeitos conscientes de seus quereres, e que compreendem que a sua subjetividade se desenvolve pela subjetividade do outro. Isso vai determinar uma visão diversa da vida, na qual o objetivo não mais será dominar, mas desenvolver ajustamentos das sensibilidades.’

Nesse ajustamento que deve ser procurado está também a nossa relação com a natureza. ‘Em vez de explorar o universo, trocar o modelo manipulatório tradicional pelo da dança mundana, na qual é o contínuo ajustar de um ao outro que vai criando um sentido, porque na dança, a interação se alicerça sobre a sensibilidade recíproca.'”

Eric Landowski para O Estado de S.Paulo, publicado em 16/03/2010. Matéria de Helena Katz.

Matéria completa. Retirada de http://www.helenakatz.pro.br/ em 24/03/2010.

Quando pode ser útil o uso do PARA?

janeiro 27, 2010

Penso que o PARA, além de pensarmos mais em apontar uma FAMILIARIDADE que uma FINALIDADE, pode nos ajudar também a pensar em PROPÓSITOS e em POSTURA ou POSIÇÃO ÉTICA.

Não se faz dança PARATODOS. E muito menos PARA UM. Perceptivamente pode ser que o uso do PARA seja problemático sim, mas eticamente ele nos traz uma facilidade incrível.

Segundo post-desabafo. Destrinchamento ou bombexplosão fica pra outro dia.

Não se dança para…

janeiro 26, 2010

…uma finalidade, se dança para uma familiaridade.

“Não se dança para, se dança com.”

janeiro 26, 2010
A pergunta feita era: “Por que você dança para o público?” A primeira coisa que me passou pela cabeça, no entanto, foi que a idéia de dançar PARA o público reforça o sistema emissor-mensagem-receptor, do qual tanto tenho fugido, e também algumas pessoas com quem tenho conversado.

Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.

Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.

Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.

Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.

Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.

A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.

Sir Isaac Newton

janeiro 4, 2010

Hoje de manhã abri o meu Google Chrome e na página inicial, que é a página de abertura de pesquisa do Google, tinha um galho de macieira e de repente me cai uma maçã. Lembrei-me de Sir Isaac Newton no ato e, quando cliquei no logotipo, fui direcionado à pesquisa de justamente esse nome e descobri que é aniversário de nascimento de um dos maiores cientistas da história, nascido em 1643.

No início e durante toda a pesquisa de A Incerteza estive estudando a física, ou filosofia natural, de Newton, para que pudesse entender o determinismo e a previsibilidade contidos em sua idéia de tempo e de universo. Criamos alguns jogos algorítmicos e tentamos criar sequências coreográficas baseadas em “força aplicada” que fossem o mais claras possível, para que a pudéssemos inverter os acontecimentos (coreografia), ou reverter as forças.

Para Newton, não conseguimos distinguir passado de futuro e a sensação de tempo caminhando para o futuro é uma espécie de “falha humana” (bastante platônico, não?). O mundo poderia ser redutível a trajetórias calculáveis matematicamente e seria uma soma delas, de modo que se conhecermos certo estado de algo poderemos dizer o que ocorreu antes e o que ocorrerá depois, ou seja, podemos falar sobre a trajetória de qualquer coisa por essa coisa ser a soma da trajetória de vários pontos. Cabia à ciência e a filosofia justamente tentar desvendar tais leis fundamentais reduzidas.

Foi essa idéia de redução matemática das leis do mundo que fizeram Newton tão importante. Suas três leis (inércia; a relação massa-aceleração-força; e a lei da ação e reação) sintetizam f’ísica e matematicamente grande parte do que observamos do mundo mecânico numa escala próxima à nossa.

Para isso, inventou o cálculo, e divide tal autoria com Gottfried Leibniz. A propósito, há uma briga famosa entre os dois. O que mais me cabe citar aqui é a divergência quanto à compreensão de espaço. Enquanto Newton acreditava existir algum ponto de referência de repouso absoluto no universo, ao qual nunca teríamos acesso, Leibniz recusava esse entendimento absoluto do espaço, que deveria existir sempre em relação a algo. Hoje já está mais que provado a relatividade espacial, uma vez que a constante universal proposta por Einstein é uma velocidade, ou seja, uma relação espaçotemporal indissociável.

Gostaria também de dar os parabéns ao homem que conseguiu provar a consistência da teoria gravitacional, e formulou uma Teoria da Gravitação Universal que fez com que a explicação mais coerente para o problema da atração dos corpos verticalmente para a Terra seja realmente a gravidade. Ao contrário do que muitos pensam, contudo, Newton não propôs uma explicação para a causa da existência da gravidade, que foi explorada por Einstein geometricamente cerca de duzentos anos depois.

Para finalizar volto aos experimentos de A Incerteza em 2009, em que percebemos a impossibilidade de nossos corpos serem tão exatos como Newton propunha. Não podíamos falar de um estado exatamente A, mas de um estado aproximadamente A e, portanto, qualquer previsão de um estado futuro B ou de um estado passado C só pode ser dada a partir de probabilidades. Isso é um assunto tratado pela física estatística de Ilya Prigogine, também incrivelmente importante para nosso trabalho. É um pensamento completamente diferente de Newton, mas que o inclui. Prigogine reconhece a importância de Newton para o desenvolvimento da física e sua teoria engloba os eventos newtonianos, que correspondem a eventos com previsão de 100% de chance de ocorrência. Vou parar por aqui, porque o assunto vai mudar demais.

Feliz 367 anos, Isaac Newton!