Archive for the ‘Filosofia’ Category

Férias de escrita.

agosto 19, 2010

Depois dessa série de vídeos:

O 7 é especial (mas ver todos é fundamental):

Espaço-tempo Guarani.

junho 23, 2010

Ñamandu Ru Ete tenondé gua
o yva rã oguero-jera ey mboyve i;
Yvy Tenondé oguero-jera ey mboyve i;
yvytu yma i re A’e oiko oikovy:
Ñande Ru oiko i águe yvytu yma,
ojeupity jevy ma ára yma ojeupity ñavõ
ára yma ñemo-kandire
ojeupity ñavõ.
Ára yma opa ramove, tajy poty
py, yvytu ova ára pyaú py: oiko
ma yvytu pyaú, ára pyaú, ára
pyaú ñemokandire.

Antes de haver o verdadeiro Pai, o Uno,
criado no curso de sua evolução, sua morada,
antes de haver criado a Terra Primeira,
existia em meio aos primeiros ventos:
e o Vento Primeiro de nosso Pai
podemos percebê-lo como espaço-tempo,
onde ao fim deste Vento,
nomeou-lhe: época, era, (h)ora.
Orou, arando rios de tempo-espaço,
desaguando novos ventos, os espaços novos,
defloram e florescem
a flor de cada época.

Copiado de:
JECUPÉ, Kaka Werá. Tupã Tenondé: A criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani. 2ª edição. São Paulo: Peirópolis, 2001. p. 31.

CLUBE UR=H0R E ADRIANA BANANA | DESENQUADRANDO EUCLIDES

junho 11, 2010

PROP.POSIÇÃO #2 – pesquisa em DANÇApensamento.

Com TUCA PINHEIRO, KARINA COLLAÇO, LÍVIA RANGEL, ADRIANA BANANA e RAUL CORRÊA.

Dias 11, 12, 13, 18, 19 e 20 de junho de 2010.
Sextas e sábados às 20h, domingos às 18h.

Ingressos a R$10 (inteira) e R$5 (meia).

Rua Grão Pará, 185 – Santa Efigênia, BH/MG/Brasil.
Info: (31) 3241.2020 / 3225.5070

http://clubeur.wordpress.com/

Detetives, cérebros e documentação.

junho 6, 2010

Eis o seguinte problema: tentar reconstituir o passado.

Eis um problemão. Pensemos no trabalho de um detetive que tenta descobrir como se deu um certo crime. Sua tarefa consiste em observar características do presente que possam servir de referência para acontecimentos passados. Com base num aprendizado de toda uma vida, que inclui relações de causalidade, associação, sequência, classificação, entre um enorme punhado de maneiras de se raciocinar, e levando-se em consideração ainda uma ética, a sua capacidade criativa, o estado de saúde, a maneira filogenética (aquilo que é inato, herdado geneticamente) de seu corpo lidar com o ambiente – e vou parar por aqui senão nunca mais paro de escrever – o detetive coleta, dentre o que estiver disponível para ele, aquilo que pode ser relevante para a construção de sua hipótese. Digo o relevante porque não adianta gastar tempo, dinheiro e energia para se coletar todas as características do lugar analisado, e inclusive essa totalidade é algo bastante questionável. Dessa forma, ele organiza as informações para que se possa efetivamente obter uma reconstituição coerente e aceitável da cena do crime.

Agora eu vou contar uma coisa pra vocês: a percepção age da mesma forma que o detetive, construindo ativamente passado, presente e futuro de acordo com a melhor hipótese que se pode obter através dos dados sensoriais disponíveis e relevantes para tal. Por exemplo, se minha pele parece estar molhada (e isso já demandou uma análise neurológica supercomplexa), fria e espetada em vários pontos variando ao longo do tempo, ao mesmo tempo que pareço ver riscos caindo de cima pra baixo e tem um som que parece um monte de tec-tec e ploc-ploc vindo de todos os lados, a melhor hipótese é a de que deve estar chovendo em mim – e esse raciocínio todo é feito muito rapidamente, inconscientemente, caso contrário morreríamos de tanto tempo que iríamos levar analisando conscientemente essas coisas todas, o tempo todo. Vale notar, a partir da analogia proposta, que os sentidos não atuam separadamente na percepção da realidade. O que se percebe em forma de som, por exemplo, não é simplesmente o resultado da análise do aparelho auditivo, mas da hipótese construída a partir do que pode ser relevante para tal, o que no processo de escuta de uma língua fica quase óbvia a influência do aparelho visual, por exemplo. Não me estenderei nisso, mas tó umas coisitas pra quem quiser:

A minha intenção agora é fazer um paralelo entre o trabalho do detetive, a ação perceptiva e uma possível documentação de acontecimentos-dança. A documentação, ou registro, poderia ser pensada como a produção de possíveis pistas para a construção posterior de uma melhor hipótese do acontecimento (dança) em questão. Por exemplo, a gravação em vídeo de um ponto de vista estático é um conjunto de pistas. Se gravarmos mais um ponto de vista estático, é mais um conjunto que pode nos ajudar a formular melhor a hipótese do que aconteceu. Um ponto de vista em movimento daria outras pistas, assim como se gravarmos o som a partir de cada ponto de vista. As qualidades dos aparelhos de gravação de som e vídeo utilizados influenciam nas qualidades das pistas produzidas. Um relato em língua também pode constituir outras pistas; e por aí vai..

Parece óbvio que se faz documentação assim, mas a intenção é explicitar a lógica da elaboração da melhor hipótese como registro, em contraposição à idéia de que o registro possui o acontecimento em si. Até porque, como vimos, a percepção de um acontecimento já é a elaboração de uma hipótese feita pelo sistema perceptivo (nervoso? ou inclui outros?) do corpo humano (no caso, já que estamos falando de acontecimento-dança produzidos por indivíduos da espécie humana).

O documentarista seria, portanto, o criminoso que sabe que pistas deixará para o detetive, de forma a tentar prever como o último construirá a sua melhor-hipótese.

Vídeo.

maio 20, 2010

No primeiro post eu falei que não ia mostrar vídeos aqui, e cá estou eu videando.
Mas é que o vídeo já estava subido no Vimeo e achei que não fazia sentido deixá-lo de lado do blog.

Parece que o wordpress não me deixa botar o vídeo aqui. Esquisito… Vai assim mesmo:

VÍDEO

(Se alguém souber como fazer, diga por favor.)

Uma pergunta sem sentido.

março 25, 2010

Qual destes trabalhos é mais abstrato, ou menos figurativo?

Landowski

março 24, 2010

“‘A vida não pode ser limitada à execução de programas fixados. É preciso buscar acordos entre sujeitos conscientes de seus quereres, e que compreendem que a sua subjetividade se desenvolve pela subjetividade do outro. Isso vai determinar uma visão diversa da vida, na qual o objetivo não mais será dominar, mas desenvolver ajustamentos das sensibilidades.’

Nesse ajustamento que deve ser procurado está também a nossa relação com a natureza. ‘Em vez de explorar o universo, trocar o modelo manipulatório tradicional pelo da dança mundana, na qual é o contínuo ajustar de um ao outro que vai criando um sentido, porque na dança, a interação se alicerça sobre a sensibilidade recíproca.'”

Eric Landowski para O Estado de S.Paulo, publicado em 16/03/2010. Matéria de Helena Katz.

Matéria completa. Retirada de http://www.helenakatz.pro.br/ em 24/03/2010.

Mundo não-concreto.

março 24, 2010

O que esse post propõe é a idéia de que não existe a concretude no mundo e, com isso, a oposição concreto/abstrato perde o sentido.

Como um começo, pode ser bom retomar o post  “Não se dança para, se dança com.”, para relembrar que o mundo é construído, e não pronto para o percebermos/recebermos. O processo de apreensão do mundo, a partir de dados brutos intangíveis (para falar como Flusser), é um processo de percepção construtiva ativa, e não passiva, como deveríamos pensar se o mundo estivesse pronto. Nesse processo ativo de percepção, corpo e mundo se modificam mútua, contínua e adirecionalmente, construindo realidade. Se pensarmos que os dados brutos são possibilidades de realidade ainda virtuais, e que o processo de percepção (sempre ativa) é um processo de realização (ou construção de realidade) de alguma dessas possibilidades, podemos então dizer que corpo e mundo estão em constante processo de atualização – ou seja, tal corpo e mundo se realizam no presente, sempre, e não no passado ou futuro. Passado e futuro também são construídos, e evolutivamente nosso corpo consegue muito bem fazer essas construções: documentar o passado e prever o futuro. O desenvolvimento da ciência moderna é um ótimo exemplo de como conseguimos fazer isso bem, mesmo que hoje entendamos que tanto a previsão quanto a documentação possuem certa incerteza. Admitir isso significa admitir que o mundo não é objeto a ser percebido por um sujeito, e não poderemos, portanto, falar sobre ele sem levar em conta o corpo (não necessariamente individual) que o percebe, ou seja, que se atualiza com ele.

Depois dessas admissões, podemos agora pensar que não há concretude ou figuração, como antônimos da abstração. A Wikipedia diz que Abstração é o processo ou resultado de generalização por redução do conteúdo da informação de um conceito ou fenómeno observável, normalmente para reter apenas a informação que é relevante para um propósito particular” (link). Nesse conceito de abstração, há uma hierarquização do que seria uma informação mais relevante, ou mais elementar (entendo eu) que outra. Pensando assim, um círculo é algo mais abstrato que uma bola. Mas, analisando dessa forma, me parece que a bola seria uma coisa mais concreta que o círculo, ou seja, a bola é uma coisa do mundo, enquanto o círculo é uma abstração do mundo, uma parte dele, algo mais elementar do que a bola, que é feita do círculo. A bola seria, portanto, mais significativa que o círculo? Mas, seguindo essa lógica, a bola se aproxima do dado bruto, da concretude, e já foi admitido que tal concretude é intangível e que tudo que compõe nossa realidade é construído. Logo, a bola é uma abstração do dado bruto que a possibilita, ao qual nunca teremos acesso. Podemos aplicar isso a todas as coisas que constituem a nossa realidade e, sendo assim, o mundo não admite concretude. Tudo é abstrato. Mas abstrato não significando elementar, e sim construído. A Wikipedia também diz que “Na teminologia filosóficaabstração é o processo de pensamento em que ideias são distanciadas dos objetos, operação intelectual onde existe o método que isola os generalismos teóricos dos problemas concretos por forma a resolver os últimos.” Há alguma aproximação com o que está sendo proposto, por determinar que a abstração é um processo de pensamento, e que constitui idéias. O problema está na ilusão de que há objetos concretos a serem distanciados. Cada vez mais está sendo difícil de acreditar que possa existir tal concretude e tal objetividade.

Vários experimentos neurológicos têm sido feitos para se tentar compreender os processos perceptivos, e esses experimentos cada vez mais têm reforçado a idéia de construção do mundo como um processo contínuo, em refutamento à compreensão da percepção como recebimento do mundo.

A ciência moderna e o seu método parecem um tanto quanto problemáticas frente a essa compreensão de mundo. Me parece que Ilya Prigogine e Isabelle Stengers discutem exatamente isso em A Nova Aliança, mas ainda não o estudei direito.

Com a proposição aqui apresentada, também podemos repensar o vício das tentativas de hierarquização do mundo através da lógica atômica grega, também procurada por Isaac Newton, em que as coisas mais elementares seriam as mais simples e, agregando-se a outras, formam o nosso mundo complexo. Desse modo, poderíamos entender o mundo complexo se compreendêssemos bem o funcionamento dos corpos (?) elementares. Desconfio haver algum problema aí, mas ainda não consigo formular alguma tentativa concisa de pensamento. Talvez tentar observar o mundo pela complexidade, e não pela elementariedade. Algo me diz que Ilya Prigogine também poderá ajudar bastante nesse aspecto. Mas por enquanto ainda fica só na desconfiança…

“Não se dança para, se dança com.”

janeiro 26, 2010
A pergunta feita era: “Por que você dança para o público?” A primeira coisa que me passou pela cabeça, no entanto, foi que a idéia de dançar PARA o público reforça o sistema emissor-mensagem-receptor, do qual tanto tenho fugido, e também algumas pessoas com quem tenho conversado.

Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.

Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.

Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.

Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.

Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.

A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.

The Uncertainty.

janeiro 10, 2010

Decidi dar mais um passo em relação às questões linguísticas. A partir da criação de um blog que deverá ser escrito na língua inglesa, espero experimentar outra realidade (pra falar como Vilém Flusser), que de forma alguma pretende ser uma “versão em inglês” de A Incerteza.

Apesar do nome The Uncertainty ser sim uma tradução, é justamente a idéia de tradução que quero problematizar com isso. Esqueçamos tradução como correspondência, em prol do entendimento de aproximação. Em “Língua e realidade” (1963) Flusser apresenta uma argumentação muito bem fundamentada para esse tipo de pensamento, e isso também pode ser visto na semiótica de Charles Sanders Peirce, ou até mesmo na física estatística de Ilya Prigogine.

Levantar mais questões de língua, linguagem, entendimento de mundo e a dança no meio disso tudo: é essa a pretensão do blog The Uncertainty.

Enjoy!