Archive for the ‘Língua’ Category

História natural

abril 29, 2010

No fim, já não se sabe
se ainda é vegetal
ou se a planta se fez
formação mineral

à força de querer
permanecer tal qual
na permanência aguda
que é própria do cristal,

que só não pode ser
o imóvel mais cabal
mas que ao estar imóvel
está aceso e atual.

João Cabral (1979: 144)

Copiado de:
Katz, Helena. Um, dois, três. A dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: FID Editorial, 2005. 1 ed. p. 41

Quando pode ser útil o uso do PARA?

janeiro 27, 2010

Penso que o PARA, além de pensarmos mais em apontar uma FAMILIARIDADE que uma FINALIDADE, pode nos ajudar também a pensar em PROPÓSITOS e em POSTURA ou POSIÇÃO ÉTICA.

Não se faz dança PARATODOS. E muito menos PARA UM. Perceptivamente pode ser que o uso do PARA seja problemático sim, mas eticamente ele nos traz uma facilidade incrível.

Segundo post-desabafo. Destrinchamento ou bombexplosão fica pra outro dia.

Não se dança para…

janeiro 26, 2010

…uma finalidade, se dança para uma familiaridade.

“Não se dança para, se dança com.”

janeiro 26, 2010
A pergunta feita era: “Por que você dança para o público?” A primeira coisa que me passou pela cabeça, no entanto, foi que a idéia de dançar PARA o público reforça o sistema emissor-mensagem-receptor, do qual tanto tenho fugido, e também algumas pessoas com quem tenho conversado.

Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.

Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.

Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.

Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.

Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.

A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.

The Uncertainty.

janeiro 10, 2010

Decidi dar mais um passo em relação às questões linguísticas. A partir da criação de um blog que deverá ser escrito na língua inglesa, espero experimentar outra realidade (pra falar como Vilém Flusser), que de forma alguma pretende ser uma “versão em inglês” de A Incerteza.

Apesar do nome The Uncertainty ser sim uma tradução, é justamente a idéia de tradução que quero problematizar com isso. Esqueçamos tradução como correspondência, em prol do entendimento de aproximação. Em “Língua e realidade” (1963) Flusser apresenta uma argumentação muito bem fundamentada para esse tipo de pensamento, e isso também pode ser visto na semiótica de Charles Sanders Peirce, ou até mesmo na física estatística de Ilya Prigogine.

Levantar mais questões de língua, linguagem, entendimento de mundo e a dança no meio disso tudo: é essa a pretensão do blog The Uncertainty.

Enjoy!

Um problema de língua.

janeiro 2, 2010

Lendo Vilém Flusser, “Língua e Realidade”, me deparo com o seguinte trecho escrito no prefácio por Gustavo Bernardo:

“…a primeira motivação do seu livro havia sido responder ao desafio que lhe fora lançado pela língua portuguesa, entendendo que a literatura brasileira de filosofia seria uma literatura alienada de sua própria língua. Do seu ponto de vista de imigrante, tratava-se de uma literatura de erudição que parasitava obras inglesas, alemãs e francesas. Para se contrapor, tomou a língua portuguesa como personalidade autêntica, sujeitando-se aos seus mandamentos e tentando formular pensamentos por ela ditados.”

BERNARDO, Gustavo. Prefácio. In: FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. 2ª ed. São Paulo: Annablume, 2004. p. 13-14.

A partir de tal declaração e voltando à idéia de exploração dos programas usados (e, por isso, não usar fotografias ou vídeos da pesquisa aqui, com possíveis e pertinentes exceções), senti-me provocado a ficar mais atento à língua usada. Talvez eu esteja me rendendo à sua escravidão. Isso é um blog de escritos e talvez eu não esteja suficientemente atento ao uso da língua nesses escritos.

Ai, minha Língua Portuguesa!

Por que não “mídia”?

dezembro 16, 2009

Imagino que esse seja um daqueles assuntos que é julgado por “bobagem”, mas algo que me preocupa muito é a reprodução de valores que se carrega nas palavras que usamos, muitas vezes sem nos darmos conta disso. A palavra “mídia” não é um exemplo que traz muita preocupação propriamente dita, mas tem me incomodado.

No latim, há a palavra medium, que significa a palavra portuguesa meio, e que possui plural media. Para se tratar dos meios de comunicação (plural), os países de língua inglesa encontraram nessas palavras certa pertinência e acabaram por adotá-las para falar desse assunto – mesmo que eu não saiba a data em que isso aconteceu, é clara hoje a permanência dessas palavras, tamanha a coerência dos termos. Obtém-se, dessa forma, o vocábulo media na língua inglesa (pronunciado mídia), para se tratar dos meios de comunicação.

Por alguma razão, o Brasil importou do inglês a pronúncia mídia, que significa um meio de comunicação singular, ou seja, a deturpação é dupla. A reprodução de valores se dá na importação dos vocábulos ingleses, o que não faz sentido, uma vez que nossa língua é latina e eles é que nos tomaram emprestado tal termo.

Portugal e países africanos de língua oficial portuguesa adotaram a pronúncia latina média para significar um meio de comunicação singular, o que traz uma deturpação (do plural para o singular), mas não me parece tão insensata quanto a adoção da pronúncia inglesa feita por nós.

Não sou contra a multisignificação ou a criação de novas palavras, deixo claro. O que me incomoda é a reprodução inconsciente de valores. A solução que encontrei é usar as palavras portuguesas meio (para medium) e meios (para media), já que dispomos dessas palavras e as acho tão pertinentes quanto as latinas para tratarmos dos meios de comunicação.

É isso que tenho usado e usarei nesse blog. Entendo essa discussão como pertinente às teorias dos meios de comunicação e de artes, e é disso que proponho tratar. Retomarei o assunto sempre que achar pertinente.

P.s.: fui atentado a esse problema pelo Prof. Rodrigo Duarte, do Departamento de Filosofia da FAFICH, UFMG, durante o curso “A estética de Vilém Flusser”, no primeiro semestre de 2009. Flusser, que é tcheco, ao escrever em português usa as palavras latinas medium e media.