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Mundo não-concreto.

março 24, 2010

O que esse post propõe é a idéia de que não existe a concretude no mundo e, com isso, a oposição concreto/abstrato perde o sentido.

Como um começo, pode ser bom retomar o post  “Não se dança para, se dança com.”, para relembrar que o mundo é construído, e não pronto para o percebermos/recebermos. O processo de apreensão do mundo, a partir de dados brutos intangíveis (para falar como Flusser), é um processo de percepção construtiva ativa, e não passiva, como deveríamos pensar se o mundo estivesse pronto. Nesse processo ativo de percepção, corpo e mundo se modificam mútua, contínua e adirecionalmente, construindo realidade. Se pensarmos que os dados brutos são possibilidades de realidade ainda virtuais, e que o processo de percepção (sempre ativa) é um processo de realização (ou construção de realidade) de alguma dessas possibilidades, podemos então dizer que corpo e mundo estão em constante processo de atualização – ou seja, tal corpo e mundo se realizam no presente, sempre, e não no passado ou futuro. Passado e futuro também são construídos, e evolutivamente nosso corpo consegue muito bem fazer essas construções: documentar o passado e prever o futuro. O desenvolvimento da ciência moderna é um ótimo exemplo de como conseguimos fazer isso bem, mesmo que hoje entendamos que tanto a previsão quanto a documentação possuem certa incerteza. Admitir isso significa admitir que o mundo não é objeto a ser percebido por um sujeito, e não poderemos, portanto, falar sobre ele sem levar em conta o corpo (não necessariamente individual) que o percebe, ou seja, que se atualiza com ele.

Depois dessas admissões, podemos agora pensar que não há concretude ou figuração, como antônimos da abstração. A Wikipedia diz que Abstração é o processo ou resultado de generalização por redução do conteúdo da informação de um conceito ou fenómeno observável, normalmente para reter apenas a informação que é relevante para um propósito particular” (link). Nesse conceito de abstração, há uma hierarquização do que seria uma informação mais relevante, ou mais elementar (entendo eu) que outra. Pensando assim, um círculo é algo mais abstrato que uma bola. Mas, analisando dessa forma, me parece que a bola seria uma coisa mais concreta que o círculo, ou seja, a bola é uma coisa do mundo, enquanto o círculo é uma abstração do mundo, uma parte dele, algo mais elementar do que a bola, que é feita do círculo. A bola seria, portanto, mais significativa que o círculo? Mas, seguindo essa lógica, a bola se aproxima do dado bruto, da concretude, e já foi admitido que tal concretude é intangível e que tudo que compõe nossa realidade é construído. Logo, a bola é uma abstração do dado bruto que a possibilita, ao qual nunca teremos acesso. Podemos aplicar isso a todas as coisas que constituem a nossa realidade e, sendo assim, o mundo não admite concretude. Tudo é abstrato. Mas abstrato não significando elementar, e sim construído. A Wikipedia também diz que “Na teminologia filosóficaabstração é o processo de pensamento em que ideias são distanciadas dos objetos, operação intelectual onde existe o método que isola os generalismos teóricos dos problemas concretos por forma a resolver os últimos.” Há alguma aproximação com o que está sendo proposto, por determinar que a abstração é um processo de pensamento, e que constitui idéias. O problema está na ilusão de que há objetos concretos a serem distanciados. Cada vez mais está sendo difícil de acreditar que possa existir tal concretude e tal objetividade.

Vários experimentos neurológicos têm sido feitos para se tentar compreender os processos perceptivos, e esses experimentos cada vez mais têm reforçado a idéia de construção do mundo como um processo contínuo, em refutamento à compreensão da percepção como recebimento do mundo.

A ciência moderna e o seu método parecem um tanto quanto problemáticas frente a essa compreensão de mundo. Me parece que Ilya Prigogine e Isabelle Stengers discutem exatamente isso em A Nova Aliança, mas ainda não o estudei direito.

Com a proposição aqui apresentada, também podemos repensar o vício das tentativas de hierarquização do mundo através da lógica atômica grega, também procurada por Isaac Newton, em que as coisas mais elementares seriam as mais simples e, agregando-se a outras, formam o nosso mundo complexo. Desse modo, poderíamos entender o mundo complexo se compreendêssemos bem o funcionamento dos corpos (?) elementares. Desconfio haver algum problema aí, mas ainda não consigo formular alguma tentativa concisa de pensamento. Talvez tentar observar o mundo pela complexidade, e não pela elementariedade. Algo me diz que Ilya Prigogine também poderá ajudar bastante nesse aspecto. Mas por enquanto ainda fica só na desconfiança…

“Não se dança para, se dança com.”

janeiro 26, 2010
A pergunta feita era: “Por que você dança para o público?” A primeira coisa que me passou pela cabeça, no entanto, foi que a idéia de dançar PARA o público reforça o sistema emissor-mensagem-receptor, do qual tanto tenho fugido, e também algumas pessoas com quem tenho conversado.

Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.

Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.

Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.

Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.

Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.

A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.