Posts Tagged ‘Dança’

Detetives, cérebros e documentação.

junho 6, 2010

Eis o seguinte problema: tentar reconstituir o passado.

Eis um problemão. Pensemos no trabalho de um detetive que tenta descobrir como se deu um certo crime. Sua tarefa consiste em observar características do presente que possam servir de referência para acontecimentos passados. Com base num aprendizado de toda uma vida, que inclui relações de causalidade, associação, sequência, classificação, entre um enorme punhado de maneiras de se raciocinar, e levando-se em consideração ainda uma ética, a sua capacidade criativa, o estado de saúde, a maneira filogenética (aquilo que é inato, herdado geneticamente) de seu corpo lidar com o ambiente – e vou parar por aqui senão nunca mais paro de escrever – o detetive coleta, dentre o que estiver disponível para ele, aquilo que pode ser relevante para a construção de sua hipótese. Digo o relevante porque não adianta gastar tempo, dinheiro e energia para se coletar todas as características do lugar analisado, e inclusive essa totalidade é algo bastante questionável. Dessa forma, ele organiza as informações para que se possa efetivamente obter uma reconstituição coerente e aceitável da cena do crime.

Agora eu vou contar uma coisa pra vocês: a percepção age da mesma forma que o detetive, construindo ativamente passado, presente e futuro de acordo com a melhor hipótese que se pode obter através dos dados sensoriais disponíveis e relevantes para tal. Por exemplo, se minha pele parece estar molhada (e isso já demandou uma análise neurológica supercomplexa), fria e espetada em vários pontos variando ao longo do tempo, ao mesmo tempo que pareço ver riscos caindo de cima pra baixo e tem um som que parece um monte de tec-tec e ploc-ploc vindo de todos os lados, a melhor hipótese é a de que deve estar chovendo em mim – e esse raciocínio todo é feito muito rapidamente, inconscientemente, caso contrário morreríamos de tanto tempo que iríamos levar analisando conscientemente essas coisas todas, o tempo todo. Vale notar, a partir da analogia proposta, que os sentidos não atuam separadamente na percepção da realidade. O que se percebe em forma de som, por exemplo, não é simplesmente o resultado da análise do aparelho auditivo, mas da hipótese construída a partir do que pode ser relevante para tal, o que no processo de escuta de uma língua fica quase óbvia a influência do aparelho visual, por exemplo. Não me estenderei nisso, mas tó umas coisitas pra quem quiser:

A minha intenção agora é fazer um paralelo entre o trabalho do detetive, a ação perceptiva e uma possível documentação de acontecimentos-dança. A documentação, ou registro, poderia ser pensada como a produção de possíveis pistas para a construção posterior de uma melhor hipótese do acontecimento (dança) em questão. Por exemplo, a gravação em vídeo de um ponto de vista estático é um conjunto de pistas. Se gravarmos mais um ponto de vista estático, é mais um conjunto que pode nos ajudar a formular melhor a hipótese do que aconteceu. Um ponto de vista em movimento daria outras pistas, assim como se gravarmos o som a partir de cada ponto de vista. As qualidades dos aparelhos de gravação de som e vídeo utilizados influenciam nas qualidades das pistas produzidas. Um relato em língua também pode constituir outras pistas; e por aí vai..

Parece óbvio que se faz documentação assim, mas a intenção é explicitar a lógica da elaboração da melhor hipótese como registro, em contraposição à idéia de que o registro possui o acontecimento em si. Até porque, como vimos, a percepção de um acontecimento já é a elaboração de uma hipótese feita pelo sistema perceptivo (nervoso? ou inclui outros?) do corpo humano (no caso, já que estamos falando de acontecimento-dança produzidos por indivíduos da espécie humana).

O documentarista seria, portanto, o criminoso que sabe que pistas deixará para o detetive, de forma a tentar prever como o último construirá a sua melhor-hipótese.

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História natural

abril 29, 2010

No fim, já não se sabe
se ainda é vegetal
ou se a planta se fez
formação mineral

à força de querer
permanecer tal qual
na permanência aguda
que é própria do cristal,

que só não pode ser
o imóvel mais cabal
mas que ao estar imóvel
está aceso e atual.

João Cabral (1979: 144)

Copiado de:
Katz, Helena. Um, dois, três. A dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: FID Editorial, 2005. 1 ed. p. 41

Quando pode ser útil o uso do PARA?

janeiro 27, 2010

Penso que o PARA, além de pensarmos mais em apontar uma FAMILIARIDADE que uma FINALIDADE, pode nos ajudar também a pensar em PROPÓSITOS e em POSTURA ou POSIÇÃO ÉTICA.

Não se faz dança PARATODOS. E muito menos PARA UM. Perceptivamente pode ser que o uso do PARA seja problemático sim, mas eticamente ele nos traz uma facilidade incrível.

Segundo post-desabafo. Destrinchamento ou bombexplosão fica pra outro dia.

“Não se dança para, se dança com.”

janeiro 26, 2010
A pergunta feita era: “Por que você dança para o público?” A primeira coisa que me passou pela cabeça, no entanto, foi que a idéia de dançar PARA o público reforça o sistema emissor-mensagem-receptor, do qual tanto tenho fugido, e também algumas pessoas com quem tenho conversado.

Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.

Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.

Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.

Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.

Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.

A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.

Sir Isaac Newton

janeiro 4, 2010

Hoje de manhã abri o meu Google Chrome e na página inicial, que é a página de abertura de pesquisa do Google, tinha um galho de macieira e de repente me cai uma maçã. Lembrei-me de Sir Isaac Newton no ato e, quando cliquei no logotipo, fui direcionado à pesquisa de justamente esse nome e descobri que é aniversário de nascimento de um dos maiores cientistas da história, nascido em 1643.

No início e durante toda a pesquisa de A Incerteza estive estudando a física, ou filosofia natural, de Newton, para que pudesse entender o determinismo e a previsibilidade contidos em sua idéia de tempo e de universo. Criamos alguns jogos algorítmicos e tentamos criar sequências coreográficas baseadas em “força aplicada” que fossem o mais claras possível, para que a pudéssemos inverter os acontecimentos (coreografia), ou reverter as forças.

Para Newton, não conseguimos distinguir passado de futuro e a sensação de tempo caminhando para o futuro é uma espécie de “falha humana” (bastante platônico, não?). O mundo poderia ser redutível a trajetórias calculáveis matematicamente e seria uma soma delas, de modo que se conhecermos certo estado de algo poderemos dizer o que ocorreu antes e o que ocorrerá depois, ou seja, podemos falar sobre a trajetória de qualquer coisa por essa coisa ser a soma da trajetória de vários pontos. Cabia à ciência e a filosofia justamente tentar desvendar tais leis fundamentais reduzidas.

Foi essa idéia de redução matemática das leis do mundo que fizeram Newton tão importante. Suas três leis (inércia; a relação massa-aceleração-força; e a lei da ação e reação) sintetizam f’ísica e matematicamente grande parte do que observamos do mundo mecânico numa escala próxima à nossa.

Para isso, inventou o cálculo, e divide tal autoria com Gottfried Leibniz. A propósito, há uma briga famosa entre os dois. O que mais me cabe citar aqui é a divergência quanto à compreensão de espaço. Enquanto Newton acreditava existir algum ponto de referência de repouso absoluto no universo, ao qual nunca teríamos acesso, Leibniz recusava esse entendimento absoluto do espaço, que deveria existir sempre em relação a algo. Hoje já está mais que provado a relatividade espacial, uma vez que a constante universal proposta por Einstein é uma velocidade, ou seja, uma relação espaçotemporal indissociável.

Gostaria também de dar os parabéns ao homem que conseguiu provar a consistência da teoria gravitacional, e formulou uma Teoria da Gravitação Universal que fez com que a explicação mais coerente para o problema da atração dos corpos verticalmente para a Terra seja realmente a gravidade. Ao contrário do que muitos pensam, contudo, Newton não propôs uma explicação para a causa da existência da gravidade, que foi explorada por Einstein geometricamente cerca de duzentos anos depois.

Para finalizar volto aos experimentos de A Incerteza em 2009, em que percebemos a impossibilidade de nossos corpos serem tão exatos como Newton propunha. Não podíamos falar de um estado exatamente A, mas de um estado aproximadamente A e, portanto, qualquer previsão de um estado futuro B ou de um estado passado C só pode ser dada a partir de probabilidades. Isso é um assunto tratado pela física estatística de Ilya Prigogine, também incrivelmente importante para nosso trabalho. É um pensamento completamente diferente de Newton, mas que o inclui. Prigogine reconhece a importância de Newton para o desenvolvimento da física e sua teoria engloba os eventos newtonianos, que correspondem a eventos com previsão de 100% de chance de ocorrência. Vou parar por aqui, porque o assunto vai mudar demais.

Feliz 367 anos, Isaac Newton!

Por que não registro?

novembro 27, 2009

Registros são falsos e ineficientes. Não existe a possibilidade de se falar exatamente sobre uma coisa, ou a descrição seria a própria coisa. É o que Peirce nos diz sobre a metáfora: se ela fosse perfeita, não seria uma metáfora. E Flusser, lindo como sempre, apóia tal raciocínio quando diz que a fotografia não é uma janela para o universo, mas uma interpretação de algo do universo. (Flusser, 1985)

Geralmente comete-se o equívoco de pensar na fotografia ou o vídeo como capturas da realidade. O que acontece, no entanto, é que eles têm o potencial de construir realidade, mas disso tratarei mais tarde, em outro texto. Atenho-me aqui ao equívoco de se pensar numa neutralidade do registro, numa captura do real. Toda imagem é uma construção parcial feita a partir de escolhas restritas às possibilidades aparelhísticas de quem imagina – entenda imaginar como construir imagens.

Desfeito o mito da imagem imparcial, posso dizer agora que o registro da dança é um falso registro. Meu foco não tem sido fotografia ou vídeo ou análise verbal de coreografia, logo não faz sentido que eu produza esse tipo de material. A coreografia se apresenta a partir do corpo humano. Vídeo não é coreografia e, portanto, ele não é o meio apropriado para que se apresente coreografia.

Proponho, portanto, um espaço livremente reflexivo para que questões pertinentemente verbais possam ser levantadas.

Primeira tentativa declarada da aproximação jogo-dança.

novembro 24, 2009

“Tendemos a perceber nosso ambiente como contexto de jogos, como o século 18 tendia a percebê-lo como contexto de mecanismos, e o século 19 como contexto de organismos. Por exemplo: para o século 18 o corpo humano era máquina, para o século 19 era conjunto vital, e para nós é jogo de sistemas complexos. (…) Tal tendência nossa para a ludicidade tem duas fontes. Uma é nossa práxis, que é a de jogo com símbolos. A outra é o fato de vivermos programados: programas são jogos.” (Flusser, 1983)

Esse é o primeiro parágrafo do delicioso texto “NOSSO JOGO”, contido em Pós-História, de Vilém Flusser, publicado pela primeira vez no Brasil em 1983. Já nos fala do corpo humano, aproximando-se da dança, quando diz que é “jogo de sistemas complexos”. Seja a arte uma maneira de subvertermos as regras dos jogos que participamos, quaisquer forem eles, de forma a conseguirmos fazer com que as virtualidades menos óbvias contidas no seu programa venham à tona, surpreendendo o programador: a dança, desse modo, poderia se constituir de estratégias para lidarmos esteticamente (e também eticamente, e talvez até de mais formas, mas preciso me familiarizar um pouco mais a esses termos) com o jogo de sistemas complexos que compõem o corpo humano.

Seguindo esse raciocínio, penso ser inevitável chegarmos à teoria “corpomídia” desenvolvida pelas professoras Helena Katz e Christine Greiner, da PUC-SP. Essa teoria nos propõe que o corpo é meio (já já posto sobre a minha recusa do uso da palavra mídia) de si mesmo, inclusive quando dança, negando a idéia do corpo no meio.

Quando existe dança, portanto, existe discussão de estratégias de como jogar com o aparelho corpo humano, que é o próprio meio em que o jogo (dança) acontece.

Vale lembrar que corpo e ambiente atuam coevolutivamente um sobre o outro e são indissociáveis. Logo, jogar com o corpo é também jogar com o ambiente; dançar é jogar nos limites do programa com corpo e ambiente coevolutivamente.

P.s.: tentarei me livrar gradativamente do vício em parênteses ou qualquer outro tipo de recurso explicativo no meio das frases.

A situação

novembro 18, 2009

[Esse post servirá para que o blog se situe no mundo e, principalmente, explicite as perguntas do autor que culminarão nos próximos escritos.]

“A Incerteza” foi um projeto que começou com o apoio do FID (Fórum Internacional de Dança) 2009, através do Programa Território Minas, que oferece bolsas de pesquisa em dança para pessoas de Minas Gerais. Esse ano, eu (Raul, o Incerto) e Joana Wanner fomos contemplados com a bolsa para a pesquisa, que teve seu resultado provisório apresentado nos dias 29 e 30 de outubro, no Espaço Cultural Ambiente, dentro da programação do FID 2009.

As investigações de “A Incerteza” tiveram como ponto de partida a investigação de algumas formas de entendimento do tempo ao longo da história da ciência – especialmente as noções de Isaac Newton (século XVII), da termodinâmica (séculos XIX e, a partir de Ilya Prigogine, XX) e de Albert Einstein (século XX). A partir dessas noções, nos perguntávamos como essas diferentes idéias poderiam influenciar na criação e execução coreográficas, e chegamos à dicotomia que acompanharia todo o projeto e permaneceria além dele: determinismo (o que, no entendimento de tempo, significa “futuro previsível” e “passado conhecido”) e não-determinismo (onde há a possibilidade da existência da novidade, pela existência do acaso). O estudo da música e vídeo, meios (pretendo dedicar um post ao porquê da escolha da palavra “meio”, e não “mídia”) que como a dança possuem o caráter de sucessão temporal explícito, provou-se um potencializador enorme para a investigação proposta, sendo responsáveis pela criação de quase todos os experimentos.

Após a apresentação do resultado da primeira etapa da pesquisa no FID 2009, a investigação do caráter de jogo dos experimentos criados e a exploração do erro como possibilidade de surgimento de novidade artística restaram como as propostas mais fortes, e são esses dois pontos os mais importantes para as perguntas proposta para a continuidade das investigações.

A filosofia programática proposta por Vilém Flusser (Praga, 1920-1991) tem tido importância enorme para as reflexões e será assunto para alguns posts que virão a seguir. Relacioná-la com a dança tem sido surpreendente pra mim, no sentido de que tem parecido mais pertinente do que pensei.

Bom, fica aqui a minha breve introdução a esse blog, que pretende ter muito mais caráter reflexivo que de registro – e a explicação dessa pretensão também fica pra outro post. Bacana que já tenho assunto pra outros três posts.

Foto: Cuia Guimarães / FID 2009