Posts Tagged ‘Percepção’

A documentação e a arquitetura.

junho 10, 2010

Tentemos agora pensar no mapeamento de um “acontecimento arquitetônico”. Sugiro que o mapeamento seja uma espécie de documentação (e só pra constar, não penso que essa relação seja óbvia), no sentido em que foi discutido no texto anterior para a dança. O mapeamento seria, portanto, a elaboração de um aparelho (falando como Flusser) perceptivo que carrega pistas para a tentativa de reconstrução do tal acontecimento arquitetônico, que a partir de agora chamarei-o por “arquitetura” — afinal, o que é esta senão um acontecimento? Seria incoerente, ao pensarmos dessa forma, ter o mapa (ou até mesmo um desenho técnico, que penso também não deixar de ser um mapa) como a re-(a)presentação (re: repetição; para trás) da arquitetura, e é sugerido pensá-lo como a sua pro-posição (pro: antes; para frente), que possibilita novas leituras a partir do que já foi lido — a lógica não é de ação-e-reação, mas de ação-e-ação.

Temos então a atividade de mapeamento (tanto de elaboração quanto de leitura) como uma experiência nova, e não como a retomada da arquitetura já acontecida. O mapa torna-se um aparelho que nos proporciona novas experiências arquitetônicas, e pode nos servir como um poderoso potencializador de novas percepções, quando retornamos ao lugar*. A leitura dos mapas tomada como experiência abre caminhos sobre como elaborá-los, e inclusive nos pergunta se eles poderiam ser tratados artisticamente. Ora, se isso quer dizer investigar novas maneiras perceptivas e a pesquisa voltada para a percepção no ato do manuseio dos tais mapas, procurando sempre aumentar as possibilidades da relação mapa-leitor, parece-me não haver nenhum problema em tratá-los como pesquisa de arte. Inclusive, talvez seja promissora essa aliança, que nos dá a possibilidade de enxergar os mapas como algo não-total e que deve ser explorado, e que complicar a relação do seu leitor com ele possa até ser algo bom! Podemos assim provocar o leitor sem medo, e deixá-lo livre para realizar a sua própria exploração, e descubriremos coisas novas, independentemente da nossa intenção de “clareza”, deixando assim de lado a tão requisitada (mas desgastada) “objetividade da informação”, que sempre se prova inexistente e enganadora.

Já que rascunhamos sobre os mapas propriamente ditos, podemos tentar conversar sobre a sua elaboração — e proponho que também esta seja pensada como uma nova experiência arquitetônica. Por mais que seja um lugar cotidiano, que aparentemente conhecemos bastante, nós o conhecemos a partir de uma ética, de uma posição no mundo, de uma organização corpóreo-ambiental específica que nos é útil no dia-a-dia, em que geralmente devemos ser rápidos na realização de nossas tarefas. Quando tem-se a possibilidade de encarar esse lugar com o intuito de mapeá-lo, a ética parece mudar completamente (segundo as observações sobre a minhas próprias experiências de mapeamento). A atenção se modifica, as intenções são outras e, portanto, o corpo se relaciona de uma nova forma com aquele lugar: o corpo constrói um novo espaço, talvez mais desconhecido que os novos espaços construídos anteriormente. Assim, podemos explorar ainda mais o mesmo lugar, que adquire novas espacialidades.

Como investigação pessoal, sem dúvida o processo de elaboração de mapas tem criado novas relações espaciais. Fica aqui o convite para que essa novidade seja explorada coletivamente.

* Retornamos ao lugar, e não ao espaço, que é sempre reconstruído. O lugar pode ser pensado como uma referência, algo que se pode localizar, enquanto propõe-se pensar espaço como uma relação, nunca repetida, sempre reconstruída dependentemente do tempo, que é irreversível.

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Detetives, cérebros e documentação.

junho 6, 2010

Eis o seguinte problema: tentar reconstituir o passado.

Eis um problemão. Pensemos no trabalho de um detetive que tenta descobrir como se deu um certo crime. Sua tarefa consiste em observar características do presente que possam servir de referência para acontecimentos passados. Com base num aprendizado de toda uma vida, que inclui relações de causalidade, associação, sequência, classificação, entre um enorme punhado de maneiras de se raciocinar, e levando-se em consideração ainda uma ética, a sua capacidade criativa, o estado de saúde, a maneira filogenética (aquilo que é inato, herdado geneticamente) de seu corpo lidar com o ambiente – e vou parar por aqui senão nunca mais paro de escrever – o detetive coleta, dentre o que estiver disponível para ele, aquilo que pode ser relevante para a construção de sua hipótese. Digo o relevante porque não adianta gastar tempo, dinheiro e energia para se coletar todas as características do lugar analisado, e inclusive essa totalidade é algo bastante questionável. Dessa forma, ele organiza as informações para que se possa efetivamente obter uma reconstituição coerente e aceitável da cena do crime.

Agora eu vou contar uma coisa pra vocês: a percepção age da mesma forma que o detetive, construindo ativamente passado, presente e futuro de acordo com a melhor hipótese que se pode obter através dos dados sensoriais disponíveis e relevantes para tal. Por exemplo, se minha pele parece estar molhada (e isso já demandou uma análise neurológica supercomplexa), fria e espetada em vários pontos variando ao longo do tempo, ao mesmo tempo que pareço ver riscos caindo de cima pra baixo e tem um som que parece um monte de tec-tec e ploc-ploc vindo de todos os lados, a melhor hipótese é a de que deve estar chovendo em mim – e esse raciocínio todo é feito muito rapidamente, inconscientemente, caso contrário morreríamos de tanto tempo que iríamos levar analisando conscientemente essas coisas todas, o tempo todo. Vale notar, a partir da analogia proposta, que os sentidos não atuam separadamente na percepção da realidade. O que se percebe em forma de som, por exemplo, não é simplesmente o resultado da análise do aparelho auditivo, mas da hipótese construída a partir do que pode ser relevante para tal, o que no processo de escuta de uma língua fica quase óbvia a influência do aparelho visual, por exemplo. Não me estenderei nisso, mas tó umas coisitas pra quem quiser:

A minha intenção agora é fazer um paralelo entre o trabalho do detetive, a ação perceptiva e uma possível documentação de acontecimentos-dança. A documentação, ou registro, poderia ser pensada como a produção de possíveis pistas para a construção posterior de uma melhor hipótese do acontecimento (dança) em questão. Por exemplo, a gravação em vídeo de um ponto de vista estático é um conjunto de pistas. Se gravarmos mais um ponto de vista estático, é mais um conjunto que pode nos ajudar a formular melhor a hipótese do que aconteceu. Um ponto de vista em movimento daria outras pistas, assim como se gravarmos o som a partir de cada ponto de vista. As qualidades dos aparelhos de gravação de som e vídeo utilizados influenciam nas qualidades das pistas produzidas. Um relato em língua também pode constituir outras pistas; e por aí vai..

Parece óbvio que se faz documentação assim, mas a intenção é explicitar a lógica da elaboração da melhor hipótese como registro, em contraposição à idéia de que o registro possui o acontecimento em si. Até porque, como vimos, a percepção de um acontecimento já é a elaboração de uma hipótese feita pelo sistema perceptivo (nervoso? ou inclui outros?) do corpo humano (no caso, já que estamos falando de acontecimento-dança produzidos por indivíduos da espécie humana).

O documentarista seria, portanto, o criminoso que sabe que pistas deixará para o detetive, de forma a tentar prever como o último construirá a sua melhor-hipótese.

Mundo não-concreto.

março 24, 2010

O que esse post propõe é a idéia de que não existe a concretude no mundo e, com isso, a oposição concreto/abstrato perde o sentido.

Como um começo, pode ser bom retomar o post  “Não se dança para, se dança com.”, para relembrar que o mundo é construído, e não pronto para o percebermos/recebermos. O processo de apreensão do mundo, a partir de dados brutos intangíveis (para falar como Flusser), é um processo de percepção construtiva ativa, e não passiva, como deveríamos pensar se o mundo estivesse pronto. Nesse processo ativo de percepção, corpo e mundo se modificam mútua, contínua e adirecionalmente, construindo realidade. Se pensarmos que os dados brutos são possibilidades de realidade ainda virtuais, e que o processo de percepção (sempre ativa) é um processo de realização (ou construção de realidade) de alguma dessas possibilidades, podemos então dizer que corpo e mundo estão em constante processo de atualização – ou seja, tal corpo e mundo se realizam no presente, sempre, e não no passado ou futuro. Passado e futuro também são construídos, e evolutivamente nosso corpo consegue muito bem fazer essas construções: documentar o passado e prever o futuro. O desenvolvimento da ciência moderna é um ótimo exemplo de como conseguimos fazer isso bem, mesmo que hoje entendamos que tanto a previsão quanto a documentação possuem certa incerteza. Admitir isso significa admitir que o mundo não é objeto a ser percebido por um sujeito, e não poderemos, portanto, falar sobre ele sem levar em conta o corpo (não necessariamente individual) que o percebe, ou seja, que se atualiza com ele.

Depois dessas admissões, podemos agora pensar que não há concretude ou figuração, como antônimos da abstração. A Wikipedia diz que Abstração é o processo ou resultado de generalização por redução do conteúdo da informação de um conceito ou fenómeno observável, normalmente para reter apenas a informação que é relevante para um propósito particular” (link). Nesse conceito de abstração, há uma hierarquização do que seria uma informação mais relevante, ou mais elementar (entendo eu) que outra. Pensando assim, um círculo é algo mais abstrato que uma bola. Mas, analisando dessa forma, me parece que a bola seria uma coisa mais concreta que o círculo, ou seja, a bola é uma coisa do mundo, enquanto o círculo é uma abstração do mundo, uma parte dele, algo mais elementar do que a bola, que é feita do círculo. A bola seria, portanto, mais significativa que o círculo? Mas, seguindo essa lógica, a bola se aproxima do dado bruto, da concretude, e já foi admitido que tal concretude é intangível e que tudo que compõe nossa realidade é construído. Logo, a bola é uma abstração do dado bruto que a possibilita, ao qual nunca teremos acesso. Podemos aplicar isso a todas as coisas que constituem a nossa realidade e, sendo assim, o mundo não admite concretude. Tudo é abstrato. Mas abstrato não significando elementar, e sim construído. A Wikipedia também diz que “Na teminologia filosóficaabstração é o processo de pensamento em que ideias são distanciadas dos objetos, operação intelectual onde existe o método que isola os generalismos teóricos dos problemas concretos por forma a resolver os últimos.” Há alguma aproximação com o que está sendo proposto, por determinar que a abstração é um processo de pensamento, e que constitui idéias. O problema está na ilusão de que há objetos concretos a serem distanciados. Cada vez mais está sendo difícil de acreditar que possa existir tal concretude e tal objetividade.

Vários experimentos neurológicos têm sido feitos para se tentar compreender os processos perceptivos, e esses experimentos cada vez mais têm reforçado a idéia de construção do mundo como um processo contínuo, em refutamento à compreensão da percepção como recebimento do mundo.

A ciência moderna e o seu método parecem um tanto quanto problemáticas frente a essa compreensão de mundo. Me parece que Ilya Prigogine e Isabelle Stengers discutem exatamente isso em A Nova Aliança, mas ainda não o estudei direito.

Com a proposição aqui apresentada, também podemos repensar o vício das tentativas de hierarquização do mundo através da lógica atômica grega, também procurada por Isaac Newton, em que as coisas mais elementares seriam as mais simples e, agregando-se a outras, formam o nosso mundo complexo. Desse modo, poderíamos entender o mundo complexo se compreendêssemos bem o funcionamento dos corpos (?) elementares. Desconfio haver algum problema aí, mas ainda não consigo formular alguma tentativa concisa de pensamento. Talvez tentar observar o mundo pela complexidade, e não pela elementariedade. Algo me diz que Ilya Prigogine também poderá ajudar bastante nesse aspecto. Mas por enquanto ainda fica só na desconfiança…

“Não se dança para, se dança com.”

janeiro 26, 2010
A pergunta feita era: “Por que você dança para o público?” A primeira coisa que me passou pela cabeça, no entanto, foi que a idéia de dançar PARA o público reforça o sistema emissor-mensagem-receptor, do qual tanto tenho fugido, e também algumas pessoas com quem tenho conversado.

Esse tipo de entendimento, direcional, traz a seguinte idéia: o emissor, fechado em si e sem o contato com o receptor, elabora uma mensagem que está contida nele e que se prontifica, e então ela é enviada a um outro, que a recebe, como ela foi enviada ou com o (d)efeito de algum ruído. Mensagem do emissor PARA o receptor. A direção é definida, de um ponto a outro.

Contudo, esse entendimento é completamente incompatível com os processos perceptivos do corpo humano. Tais processos não possuem direção definida, não possuem local de acontecimento definido e modificam o mundo quando acontecem. Toda percepção é também uma ação. Nosso corpo, em contato com o mundo, modifica o mundo quando o percebe, e também modifica a si mesmo. Quando observamos uma maçã, por exemplo, há todo um processo complexo de reconhecimento do objeto, de acesso à memória perceptiva e representação da maçã comparada a outras maçãs – ou seja, não faz sentido que a maçã exista em si mesma, pois ela está instrinsecamente conectada à nossa capacidade de percebê-la (e relacioná-la), e também por isso modificamos a nossa maçã quando percebemos uma nova maçã. Agimos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Observar a maçã não é ter uma impressão (im-pressão, pressionar ou empurrar para dentro) de maçã, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre ele e sobre si mesmo. Da mesma forma, representar uma maçã não significa expressá-la (ex-pressar, pressionar ou empurrar para fora) no mundo, mas relacionar-se complexamente com o mundo, atuando sobre si mesmo e sobre ele, configurando novas possibilidades perceptivas.

Voltemos para a mensagem, então. Faz algum sentido, entendendo a percepção dessa forma, pensar em emissor-mensagem-receptor? Não, não faz. Dança não é uma mensagem que se passa para o público, assim como não é uma idéia contida no corpo e que é expressa no mundo.

Assim como observar (perceber) a maçã é uma ação no mundo e em si mesmo, dançar é também atuar sobre o mundo e sobre si mesmo. Não faz sentido pensar numa idéia contida no corpo, pois formular essa idéia já é atuar no mundo. Podemos ir além e pensar que não é possível separar o que acontece no corpo do que acontece no mundo e, dessa forma, dança não é algo que está no corpo e sai para o mundo, mas algo que acontece no corpo e no mundo ao mesmo tempo. A dança é a própria organização, são as próprias idéias existentes no corpo (e no mundo). A dança não sai, a dança é.

Da mesma forma, o observador de dança (o público) também não recebe a mensagem em forma de dança. Seu processo de observação é tão complexo quanto o de acontecimento da dança – aliás, faz parte dele. Não se dá a dança PARA o público, não se mostra PARA o público, não se faz PARA o público, mas se constrói COM o público. Os processos perceptivos, dos quais a dança faz parte, acontecem no corpo que dança, nos corpos que observam e no mundo em que se age. Logo, se entendemos percepção como ação, todos os processos acontecem em todas as direções e ao mesmo tempo, e tudo se modifica.

A direcionalidade, para esse tipo de análise da percepção e da construção do mundo, se perde e não faz mais sentido. Somem a noção de emissor-mensagem-receptor, assim como a noção de sujeito-ação-objeto. Problemas de dança, problemas de língua, problemas do mundo, no mundo e com o mundo.